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Alzheimer: Entrevista com o neurologista Irapuá Ferreira

 

Quais os sintomas mais comuns do Alzheimer?

A queixa inicial da doença é a perda de memória para atividades rotineiras. Mas, não é todo mundo que esquece as coisas que tem a doença. Existem outras causas de esquecimento. No caso do Alzheimer, essa dificuldade progride ao longo do tempo e afeta outras áreas da cognição, como a linguagem, a velocidade de raciocínio e de julgamento.

Como a doença se caracteriza?

A doença se instala de forma traiçoeira. A primeira queixa é a dificuldade de memorização, com o comprometimento da memória de curta duração (chamada memória de trabalho), que nos permite exercer as tarefas do dia-a-dia.  O paciente esquece onde deixou as chaves do carro, a carteira, o nome de um conhecido. Com o tempo, a pessoa larga as tarefas pela metade, esquece o que foi fazer no quarto, deixa o fogão aceso, abre o chuveiro e sai do banheiro, perde-se no caminho de volta para casa. A perda de memória é progressiva e o paciente é incapaz de lembrar fatos recentes, mas tem a capacidade de recordar do passado com facilidade. Com a progressão da doença, outras habilidades mais  complexas são perdidas , como fazer compras por exemplo. A capacidade de realizar atividades de vida diária, como se alimentar e fazer a higiene pessoal, só é perdida em fases mais avançadas da doença.

A doença atinge obrigatoriamente a população idosa ou há casos entre pessoas jovens?

Existem casos em pessoas com 50 anos ou até menos, mas isso é a exceção. Em geral, esses casos estão relacionados a quadros de doença de Alzheimer familiar.  São casos raros que correspondem a menos de 10 % do total, em que existe uma alteração em alguns genes que predispõe aquela família a desenvolver a doença de forma mais precoce. Nessa situação, diversas gerações da família são afetadas.

As mulheres estão mais suscetíveis ao problema ou trata-se de um mito?

Alguns estudos mostram uma maior prevalência da doença em mulheres, outros não confirmaram essa associação. Alguns pesquisadores da área explicam essa diferença pela maior expectativa de vida das mulheres. Quem vive mais vai ter uma maior chance de desenvolver a doença, já que o principal fator de risco é a idade.

O tratamento é feito com medicamento, cirurgia ou as duas coisas?

O tratamento é medicamentoso. Não existe cirurgia para doença de Alzheimer. Embora várias drogas estejam sendo testadas, atualmente, o tratamento mais eficaz se baseia na utilização das que inibem a ação responsável pela degradação da acetilcolina (inibidores da acetilcolinesterase). A acetilcolina é um neurotransmissor, que são moléculas que atuam na transmissão do impulso nervoso de um neurônio para o outro. A acetilcolina está diminuída nesse pacientes.

Esses medicamentos têm eficácia documentada e estão indicados no tratamento das formas leve ou moderada, com a finalidade de ajudar os pacientes a manter a habilidade de executar as atividades de rotina por mais tempo e de preservar a capacidade de se relacionar com os familiares e amigos.

Quais as dificuldades para tratar o Alzheimer?

A maior dificuldade é o fato de esta ser uma doença degenerativa e que não tem um tratamento que leve a cura. O objetivo do tratamento é retardar a evolução do Alzheimer e preservar, por mais tempo possível, as funções intelectuais. Os melhores resultados são obtidos quando o tratamento é iniciado nas fases mais precoces. No entanto, independente do tratamento, o curso da doença é inexorável. Os tratamentos atuais não agem na causa da doença, uma vez que o processo de evolução do problema teve inicio décadas antes do diagnóstico. Quando os primeiros sintomas aprecem, vemos só a ponta do iceberg.

Como a família pode contribuir para que o paciente tenha mais qualidade de vida?

A família é essencial no tratamento da doença de Alzheimer. O papel do cuidador é de fundamental importância, uma vez que a doença vai evoluir para uma situação de dependência do paciente.  A família vai ser responsável pelos cuidados de higiene, alimentação, lazer dos pacientes. É nítida a diferença entre um idoso com doença de Alzheimer bem cuidado ou não. E isso determina a qualidade de vida do paciente.

É preciso um atendimento multiprofissional nesses casos? Por quê?

O atendimento multiprofissional é imprescindível. Sozinho, o médico responsável pelo cuidado do paciente com Alzheimer – seja ele um neurologista, clínico ou geriatra – não consegue oferecer todo o cuidado necessário ao doente. O tratamento medicamentoso é limitado e sua função é restrita as fases mais precoces. Os pacientes precisam de cuidados da fonoaudiologia, fisioterapeuta, enfermagem, terapia ocupacional. E o médico deve participar dessa equipe.

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22/04 /2014 às 10:36

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